Como a saúde mental afeta o peso

Sabe aquele momento em que o número na balança pesa na cabeça?
Você acorda, precisa sambar pra entrar na roupa (ou veste a roupa, ela cai, fica folgada, parece até que entrou dentro de um saco), olha pro espelho e escuta aquela voz gentil e calorosa te criticando por dentro antes mesmo de chegar na mesa pra tomar café.
Pra quem tem dificuldade de se alimentar, a fome desaparece na hora. Pra quem convive com compulsão, o ponteiro do impulso vai de 0 a 100 em segundos. É aí que você pensa:
– “ISSO sou eu.”
Antes de qualquer coisa, vamos só parar e respirar beeeeeeem fundo 😮💨.
E aproveitar para perceber o que está acontecendo aqui dentro: dá vergonha, dói quando a roupa não fica legal, e o número na balança magoa. Isso só nos deixa ainda mais frustrados e cansados.
E, no meio disso tudo, nem percebemos que o que a gente realmente precisava era de respeito. Queríamos, na verdade, ser acolhidos. Precisávamos de cuidado.
Só que, ao contrário do que a gente precisava, o que aparece é aquela pessoa “bem-intencionada” que solta as mais belas frases:
– “Nossa, mas você engordooooou, hein!”
Parecendo um cantor de ópera.
Ou:
– “Nossa, mas você tá magro demais, tá até feio já.”
Como se você tivesse perguntado alguma coisa pra ela.
Convenhamos, meu bem: reduzir tudo isso a ‘falta de força de vontade’ é simplificar demais uma relação que é bem mais complexa e complicada.
Comentários desse tipo e julgamentos que te expõem e causam vergonha corporal não são apenas “chatos” e “inconvenientes”: eles podem fazer parte de um ciclo que piora a relação que você tem entre comida e corpo 1.
Então, como é a relação entre a saúde mental e o corpo?
Isso, na verdade, é uma via de mão dupla: saúde mental, alimentação, sono e peso podem influenciar uns aos outros de diferentes maneiras e de formas que muitas vezes nem imaginamos 2.
Por exemplo, episódios de comer em excesso ou perda de apetite podem estar associados à ansiedade.
O estresse e o sono ruim também podem influenciar a forma como a gente se relaciona com a comida. Em vez da comida simplesmente cumprir seu papel de nutrir o corpo, acabamos colocando ela em um lugar diferente: no lugar de conforto e do acolhimento, ou o da agonia e do desconforto.
É assim que começa o julgamento sobre o corpo, que vai pesando na mente.
Por que a culpa não funciona?
Bom, a culpa é, na verdade, um péssimo personal trainer: grita demais, ensina e explica quase nada. E em vez de ajudar, pode alimentar um ciclo de autocrítica 3.
Então, quando o sentimento de culpa vier, a primeira coisa é reconhecer: “ah, é ela, a famigerada CULPA”. Sabendo que é ela, o próximo passo é dizer a si mesmo a verdade sobre ela, mais ou menos assim:
– “Hum, olha só quem chegou: o nosso péssimo personal trainer, chamado CULPA, que tem a função de gritar, fazer barulho e não me ajudar em basicamente nada.”
Fazendo isso, você já começa a ter mais entendimento, consciência e respeito pelos seus próprios processos.
E a fome que não é de comida?
Sabe quando bate aquela vontade de comer alguma coisa, principalmente em momentos de ansiedade, estresse, tristeza ou tédio? Às vezes, essa vontade pode estar ligada às emoções; esse comportamento pode estar relacionado ao que a literatura chama de alimentação emocional 4.
Simplificando, digamos que: é você comendo um sentimento que sofreu um acidente, perdeu a memória e saiu por aí andando, errante, sem rumo, sem teto. Coitado, tá perdido, o pobre.
A boa notícia é que dá pra ajudar esse sentimento desmemoriado a lembrar quem ele é. E é exatamente isso que a prática de hoje faz.
Este texto é um convite à autocompaixão e ao conhecimento próprio e não substitui o acompanhamento de psicólogo, psiquiatra, médico ou nutricionista. Transtornos alimentares merecem acompanhamento especializado: se comer (ou evitar comer) estiver fora de controle ou causando muito sofrimento, procure ajuda. Se não tiver como pagar, a UBS da sua região pode orientar e encaminhar.
Prática-convite (2 min)
É um convite, não uma obrigação: os artigos do Alentu sempre terminam com uma prática curtinha, porque só ler muitas vezes não basta: é na prática aos trancos e barrancos que começamos a nos transformar através do que aprendemos.
Para você começar a montar o seu arsenal para cuidar de si com mais respeito e carinho.
E lá vamos nós:
1º – Pausa de 1 minuto antes de comer (ou de não comer) por impulso. Pare e pergunte-se, mentalmente ou em voz alta — fica a seu critério:
“Espera, isso que eu tô sentindo chama como mesmo? Será que eu estou precisando de alguma coisa?”
Sem proibir nada, só perceber, sem ser cruel consigo. É um minutinho só, não é uma vida inteira. Respire e, se der, dê um nome pro pobre sentimento desmemoriado, e se você não souber dar um nome ao que está sentindo, tudo bem também… A pausa de 1 minutinho já ajuda.
Se depois disso a vontade de comer continuar, tudo bem. Coma com presença: perceba o cheiro, a textura, o sabor e o movimento da comida enquanto mastiga. Sem transformar a refeição em julgamento. Se a vontade for a de não comer, o convite é o mesmo: pare por um instante, perceba o que está sentindo e tente identificar do que você precisa.
2º – Fale consigo como falaria com alguém querido. Use o mesmo tom, o mesmo carinho, as mesmas palavras, a mesma paciência e tudo mais que você usaria com alguém que está precisando de uma palavra de carinho.
3º – Faça um gesto de cuidado sem meta de peso. Escolha um:
- Sono: se ele não anda bom, foque em melhorar a qualidade dele.
- Movimento: se o corpo está pedindo, procure um movimento gostosinho. Uns 5 minutos de dancinha já valem; qualquer coisa serve.
- Um papo: alguém com quem você gosta de conversar, ou um assunto que te dá prazer em falar.
O importante é ter carinho com você.
E se não funcionar de primeira?
Tudo bem. A ideia não é acertar de primeira, e sim começar. Tem dia em que você vai lembrar da pausa e da voz gentil; tem dia em que a culpa vai chegar antes, e ela também faz parte do processo. Treino pede repetição e gentileza, não perfeição.
Amanhã, no espelho
Amanhã, quando você olhar no espelho, a voz crítica talvez ainda apareça antes do café. Mas agora você sabe que dá pra responder com outra voz: a de quem precisava de respeito, acolhimento e cuidado desde o começo. Você não precisa gostar do número na balança hoje. Só precisa começar a se tratar com um pouco mais de carinho.
E, se você quiser continuar praticando esse tipo de cuidado, o Alentu preparou um guia gratuito, 7 dias e mais paz, é só anexar o e-mail e baixar.
Referências
- Levinson JA, Kinkel-Ram S, Myers B, Hunger JM. A systematic review of weight stigma and disordered eating cognitions and behaviors. Body Image. 2024 Mar;48:101678. doi: 10.1016/j.bodyim.2023.101678. Epub 2024 Jan 25. PMID: 38278088; PMCID: PMC11180546. ↩︎
- Degasperi G, Meneo D, Curati S, Cardi V, Baglioni C, Cellini N. Sleep quality in eating disorders: A systematic review and meta-analysis. Sleep Med Rev. 2024 Oct;77:101969. doi: 10.1016/j.smrv.2024.101969. Epub 2024 Jun 18. PMID: 38959584.. ↩︎
- Brenton-Peters J, Consedine NS, Boggiss A, Wallace-Boyd K, Roy R, Serlachius A. Self-compassion in weight management: A systematic review. J Psychosom Res. 2021 Nov;150:110617. doi: 10.1016/j.jpsychores.2021.110617. Epub 2021 Sep 16. PMID: 34560404. ↩︎
- Braden A, Ahlich E, Koball AM. Emotional Eating and Obesity: An Update and New Insights. Curr Obes Rep. 2025 Sep 29;14(1):70. doi: 10.1007/s13679-025-00661-9. PMID: 41021073; PMCID: PMC12479663. ↩︎